quarta-feira, 28 de maio de 2014

A ANTROPIZAÇÃO PRÉ-HISTÓRICA DA PAISAGEM AMAZÔNICA: O MANEJO HIDRÁULICO NO CACICADO DOS CAMUTINS


Aluno: Pedro Pedroza Cardoso – agente_pedroza@yahoo.com.br
Fundação Universidade Federal de Rondônia - UNIR
Curso de Bacharelando em Arqueologia - 6º Período
 Cadeira de Arqueologia Amazônica II
 Professor Carlos Augusto Zimpel


Resumo

Esta pesquisa procura contribuir para a construção do saber científico, pois salienta interessantes questões acerca do passado remoto dos povos amazônicos. Voltando nossos olhos especialmente para os indígenas que viveram na ilha de Marajó e que formaram vários cacicados, como o dos Camutins (sítio arqueológico composto por 34 aterros localizado ao longo do Rio Camutins), onde os seus habitantes eram extremamente habilidosos no manejo hidráulico do rio, podemos entender os indicadores de complexidade social que são de suma importância para o estudo de cacicados, como a hierarquização, a militarização, a centralização política, a legitimidade, a especialização e controle sobre a circulação de bens de prestígio, entre outros (Earle, 1991). Enfatizamos também que este trabalho colabora com a formação de nossa identidade social, pois procura conscientizar os brasileiros acerca da importância de conhecermos nosso passado, para que assim possamos respeitar e preservar os vestígios dessas culturas há muito perdidas, que não são apenas um patrimônio nacional, mas também uma fonte de saber.


Palavras-chave: Cacicados. Complexidade Social. Manejo Hidráulico.


1 Introdução

            É notório que, para o desenvolvimento de sociedades complexas, no caso desta pesquisa, o Cacicado dos Camutins, há que existir uma agricultura extremamente produtiva e eficiente que possa sustentar uma razoável densidade demográfica e ainda produzir excedentes que pudessem financiar a especialização de tarefas e uma elite, religiosa ou ideológica.
            Como então explicar o surgimento e desenvolvimento de sociedades complexas e estratificadas na Ilha de Marajó, onde se encontram alguns dos mais pobres e menos adequados solos para a agricultura em toda a bacia Amazônica (Schaan, 2006)?


2 Ilha de Marajó



É chamada de ilha de Marajó a ilha localizada na região norte do Brasil entre os estados do Pará e do Amapá e banhada pelo oceano Atlântico, além dos rios Amazonas e Tocantins. A teoria mais aceita sobre a origem do nome Marajó faz menção às observações dos índios nativos da ilha, que a denominaram de “Mibaraió”, e que em língua tupi significa “anteparo do mar” ou “tapamar”. Com uma área de 40.100 km², Marajó é considerada a maior ilha fluviomarinha do mundo (ou seja, ela é cercada por rios de um lado, e por mar do outro), e maior que muitos países independentes, como por exemplo a Bélgica, que possui 30.528 km². Contando com uma população total de cerca de 250.000 habitantes, sua área está dividida atualmente em 15 municípios, sendo que o principal destes é Soure, com 22 mil habitantes, seguida de Salvaterra com 17 mil habitantes. A ilha destaca-se pela sua paisagem diferenciada, mesmo dentro da região amazônica, e é marcada por praias desertas de água salobra, igarapés e búfalos por toda a parte. Originário da Ásia, o búfalo chegou por volta de 1890, e se multiplicou rapidamente, a partir de importação de exemplares da raça carabau, originária das Filipinas. Gradualmente estes se tornaram símbolos da ilha, sendo vistos em grandes manadas nas extensas planícies ou dispersos nas modestas áreas urbanas, onde são usados como táxi e montaria para a polícia. É em Marajó que se encontra o maior rebanho do animal no Brasil, com cerca de 700 mil cabeças, cerca de três vezes a população de todos os seus municípios.
O clima é marcado por chuvas constantes, e devido ao imenso volume, todo o seu terreno permanece alagado. Grande variedade de peixes e pássaros se fazem presentes no seu ecossistema, com destaque para o guará, uma ave típica de penas vermelhas. Em determinada época do ano é possível observar em seu litoral o fenômeno da “pororoca”, que é o encontro das águas fluviais e marítimas.
Marajó foi habitada antes da chegada dos portugueses por nações indígenas com sociedades bem avançadas e que produziram uma arte de considerável beleza plástica e certo renome, a chamada arte marajoara. Acredita-se que a ilha de Marajó foi explorada pelo navegador lusitano Duarte Pacheco Pereira em 1498, antes mesmo do resto do Brasil. Por pensar estar pisando em território espanhol, sua exploração teria permanecido em segredo. Os indígenas locais a chamavam Marinatambal, mas já estava desocupada ao tempo da exploração europeia. No período colonial passa a ser denominada ilha Grande de Joannes, para receber seu atual nome à época da independência, no século XIX. (fonte Infoescola)


Figura 1 – Ilha de Marajó - Imagem Google Earth


3 Cacicados da Amazônia

            O aumento demográfico das populações amazônicas na época da Pré-História tardia, combinado a outros fatores, suscitou grandes transformações entre as sociedades indígenas da Amazônia (John Roach). Segundo arqueólogos, as sociedades que habitavam regiões da bacia amazônica passaram a se organizar de forma cada vez mais elaborada entre o ano 1000 a.C. e o ano 1000 d.C. (Cunha, 2008). Os arqueólogos definem estas sociedades como “cacicados complexos” (Roosevelt, 1997). Essas sociedades tornaram-se cada vez mais hierarquizadas (provavelmente contendo nobres, "plebeus" e servos cativos), constituíram chefias centralizadas na figura do cacique, e adotaram posturas belicosas e expansionistas. O cacique, além de dominar amplos territórios, organizava continuamente seus guerreiros visando conquistar novos territórios. A cerâmica dessas sociedades era altamente elaborada, demonstrando um domínio de técnicas complexas de produção. Havia urnas funerárias elaboradas (associadas ao culto dos chefes mortos), comércio e os indícios arqueológicos apontam uma densidade demográfica de escala urbana nessas civilizações. Acredita-se que a monocultura era praticada, além da caça e da pesca intensivas, a produção intensiva de raízes e o armazenamento de alimentos. Segundo a pesquisadora Anna Roosevelt, "O desenvolvimento da agricultura intensiva nos tempos pré-históricos parece ter estado correlacionado à rápida expansão das populações das sociedades complexas. Sugestivamente, os deslocamentos e o despovoamento do período histórico aparentemente fizeram com que estas economias retornassem aos padrões de cultivo menos intensivo de raízes e à captura de animais (...)."(Roosevelt, 1997).



Figura 2 – Vaso Tapajó denominado “Vaso de Cariátides”.
Fonte - www.historiaparafazer.blogspot.com.br/p/historia-da-amazonia_30.html

Crônicas do início do período colonial são hoje empregadas na reconstrução das antigas civilizações brasileiras. Muitos cronistas estrangeiros descreveram elementos indígenas do período dos cacicados complexos. A dissolução dessas organizações sociais normalmente é relacionada à conquista, que teria abalado sua estrutura demográfica.





Figura 3 – Urna Funerária da fase marajoara.
Fonte - www.commons.wikimedia.org/wiki/File:Funerary_vessel_Collection_H_Law_172_n1.jpg 

A cerâmica produzida por estas civilizações é classificada em dois grupos principais: o Horizonte Policrômico e o Horizonte Inciso Ponteado. Entre os sítios arqueológicos que apresentaram vestígios agrupados sob o Horizonte Policrômico estão: os Marajoaras (foz do Amazonas) e o Guarita (Médio Amazonas), entre outros localizados fora da Amazônia brasileira. Entre os sítios arqueológicos associados ao Horizonte Inciso Ponteado encontram-se: Santarém (Baixo Amazonas) e Itacoatiara (Médio Amazonas). O primeiro horizonte é caracterizado pelas pinturas brancas, pretas e vermelhas, pelos temas geométricos e pelas incisões. O segundo horizonte é caracterizado pelas incisões profundas e pela técnica de ponteação. Acredita-se que o Horizonte Inciso Ponteado estivesse associado aos antepassados dos povos de língua Karib, enquanto o Horizonte Policrômico teria sido produzido pelos antepassados dos povos de língua Tupi.
Os grandes sítios amazônicos da época dos cacicados complexos parecem ter tido regiões especializadas para o enterro, o culto, o trabalho e a guerra. A ocupação pré-histórica tardia do território era sedentarizada. A entrada do milho e de outras sementes na região, assim como sua popularização entre os americanos, data do primeiro milênio antes de Cristo. (Roosevelt, 1997).


4 O cacicado dos Camutins

Trata-se de um sítio Arqueológico composto por 34 aterros localizados ao longo do rio Camutins. Durante as pesquisas, relacionou-se os locais de moradia, cerimônias e festas com as transformações antrópicas da paisagem, estudou-se também as estruturas internas dos aterros cerimoniais, de forma a entender os indicadores de complexidades social considerados críticos para o estudo de cacicados – especialização e controle sobre a circulação de bens e prestígio, hierarquia, centralização política, legitimidade  (ideologia e religião) e militarização.
No sítio foram identificados feições da paisagem relacionadas a um sistema de manejo hidráulico ao longo do rio Camutins, que estava funcionando plenamente em 700 A.D. (Uma barragem e dois lagos conectados ao rio, com capacidade para reter recursos aquáticos). Os conjuntos de artefatos sugerem que uma fonte principal de amido era usada, que pode ter sido obtida de palmeiras ou mandioca. A elite, possivelmente, trocava peixe por alimentos produzidos em outras regiões. As festas podem ter sido oportunidades para a feitura de trocas, assim como um meio para promover a integração e cooperação dentro do grupo social. Não havia grandes diferenças dentro do grupo da elite, isso indica que um grupo corporativo estava no poder. Somente alguns itens de trocas à longa distância foram encontrados e estavam associados com os enterramentos mais antigos escavados.
Itens de troca à longa distância podem ter sido importantes durante o período de maior desenvolvimento do sistema de criação de peixes, mas tornaram-se raros no final da sequência. A cerâmica era produzida para o consumo local dentro do domínio da elite e era uma atividade sazonal. É possível que a produção de poucos itens mais elaborados fosse uma atividade para poucos, mas que não levava à especialização de certos indivíduos no sentido de alijá-los de outras atividades produtivas e criar uma classe especial na sociedade.
Outros cacicados podem ter surgido em locais onde as condições ecológicas favoreceram a reprodução de sistemas de subsistência similares. Estes cacicados certamente interagiram entre si em um sistema que envolvia trocas, alianças matrimoniais e guerras.


4.1 O manejo hidráulico no cacicado dos Camutins

Betty J. Meggers e Clifford Evans, já nos idos de 1957, acertadamente afirmaram que uma sociedade complexa, que teria dado origem a conhecida cultura Marajoara, tinha uma vez existido na Ilha de Marajó, que é parte de um arquipélago localizado no delta do Rio Amazonas, contudo pecaram visceralmente ao negarem o seu desenvolvimento na Amazônia, dizendo que essa cultura parece ter chegado à ilha de Marajó no ápice de seu desenvolvimento e que [...] sua história local revelada no registro arqueológico é de uma lenta deterioração. Disse também que uma origem fora da Amazônia no noroeste da América do Sul, [...] está de acordo com a evidência para a ocorrência generalizada de um nível similar de desenvolvimento sociopolítico nas áreas dos Andes e Caribe (Meggers, 1987).
Anna Roosevelt, em seu livro Parmana (1980), faz uma crítica ferrenha à teoria de Meggers e Evans, afirmando que a cultura Marajoara teria sim se desenvolvido na Amazônia, mas não foi feliz ao afirmar que a principal fonte de proteína dos indígenas estava baseada na cultivação do milho, pois segundo ela boa parte da superfície de Marajó é composta de sedimentos profundos e ricos [...] os solos são bem supridos com elementos nutrientes para plantas [...] o potencial agrícola dos solos das planícies inundáveis de Marajó é, portanto, significativo (Roosevelt, 1989), o que é uma incoerência, pois é sabido que os solos da ilha são pobres e frágeis, assim, de certa forma, impossibilitando o desenvolvimento de uma complexidade sociopolítica baseada somente na agricultura.
Já Denise Pahl Schaan, contribuiu ricamente para a elucidação desta questão quando estudou o sítio arqueológico onde uma vez existiu o Cacicado dos Camutins que se desenvolveu baseado principalmente nos recursos aquáticos. Ela afirma que a razão maior para o não-desenvolvimento de uma agricultura intensiva não seria a pobreza dos solos, mas a abundância dos recursos aquáticos, que proporcionavam uma fonte de alimentos mais confiável, que poderia ser explorada com baixo investimento de trabalho (Schaan, 2006). E é ainda mais contundente ao afirmar que a intensificação da captura de recursos aquáticos pode ter estado na base do desenvolvimento de cacicados em toda a bacia Amazônica no período que antecedeu a conquista, em vez de uma agricultura intensiva (Schaan, 2006). O que a nosso ver parece ser a assertiva mais correta.

           
5 Conciderações Finais

            De acordo com os dados obtidos no decorrer das pesquisas, ficou claro que os indígenas da Ilha de Marajó sabiam manejar as águas dos rios a seu favor, construindo lagos artificiais, conectados ao rio, que tinham capacidade de reter recursos aquáticos que são abundantes na região. Isto posto, acreditamos que o surgimento da complexidade social na Ilha de Marajó teria sido impulsionada muito mais pelo desenvolvimento de uma pesca intensiva que pela agricultura, assim, podendo até mesmo sugerir o seguinte modelo para entender outros cacicados da ilha: uma sociedade hierárquica e estratificada, dividida em nobres e comuns, com economia baseada na pesca intensiva, poder nas mãos de uma linhagem que se colocava como descendente de deuses, utilização da ideologia e controle sobre a religião para justificar a estratificação social, mobilização de trabalho para a construção das obras de controle hidráulico, especialização do trabalho não muito desenvolvida, mas tendo por base gênero, idade e posição social; guerra, competição, trocas e alianças de casamento teriam caracterizado as relações entre os cacicados.


6 Bibliografia Consultada

BALÉE, William. Culturas de Distúrbio e Diversidade em Substratos Amazônicos. Revista de Arqueologia, 21, 2008.

______________. Sobre a Indigeneidade das Paisagens. Revista de Arqueologia, 21, 2008.

CARNEIRO, Robert L. A Base Ecológica Dos Cacicados Amazônicos. Revista de Arqueologia, 20, 2007.

CUNHA, Manuela Carneiro. História dos Índios no Brasil, 2008.

MEGGERS, Betty J. Environmental Limitation of the development of culture. American Anthropologist, 1954.

________________. The early history of man in Amazonia. Claredon Press, 1987.


NEVES, Walter Alves. Antropologia Ecológica: um olhar materialista sobre as sociedades humanas. Cortez Editora, 2002.


ROOSEVELT, Anna C. Parmana: Prehistoric maize and manioc subsistence along the Amazon and Orinoco. New York, Academic Press, 1980.

___________________. Lost civilizations of the lower Amazon. Natural History, 1989.


SCHAAN, Denise Pahl. Marajó: Arqueologia, Iconografia, História e Patrimônio. Pueblos y Paisajes Antiguos de La Selva Amazónica, 2006.


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