Aluno: Pedro Pedroza Cardoso – agente_pedroza@yahoo.com.br
Fundação Universidade Federal de Rondônia - UNIR
Curso de Bacharelando em Arqueologia - 6º Período
Cadeira de Arqueologia Amazônica II
Cadeira de Arqueologia Amazônica II
Professor Carlos Augusto Zimpel
Resumo
Esta pesquisa procura contribuir para a construção do saber
científico, pois salienta interessantes questões acerca do passado remoto dos
povos amazônicos. Voltando nossos olhos especialmente para os indígenas que
viveram na ilha de Marajó e que formaram vários cacicados, como o dos Camutins (sítio
arqueológico composto por 34 aterros localizado ao longo do Rio Camutins), onde
os seus habitantes eram extremamente habilidosos no manejo hidráulico do rio,
podemos entender os indicadores de complexidade social que são de suma
importância para o estudo de cacicados, como a hierarquização, a militarização,
a centralização política, a legitimidade, a especialização e controle sobre a
circulação de bens de prestígio, entre outros (Earle, 1991). Enfatizamos também
que este trabalho colabora com a formação de nossa identidade social, pois procura
conscientizar os brasileiros acerca da importância de conhecermos nosso
passado, para que assim possamos respeitar e preservar os vestígios dessas
culturas há muito perdidas, que não são apenas um patrimônio nacional, mas
também uma fonte de saber.
Palavras-chave: Cacicados.
Complexidade Social. Manejo Hidráulico.
1 Introdução
É notório que, para o
desenvolvimento de sociedades complexas, no caso desta pesquisa, o Cacicado dos
Camutins, há que existir uma agricultura extremamente produtiva e eficiente que
possa sustentar uma razoável densidade demográfica e ainda produzir excedentes
que pudessem financiar a especialização de tarefas e uma elite, religiosa ou
ideológica.
Como então explicar o surgimento e desenvolvimento
de sociedades complexas e estratificadas na Ilha de Marajó, onde se encontram alguns dos mais pobres e
menos adequados solos para a agricultura em toda a bacia Amazônica (Schaan,
2006)?
2 Ilha
de Marajó
É
chamada de ilha
de Marajó a ilha localizada na região norte do Brasil entre os
estados do Pará e do Amapá e banhada pelo oceano Atlântico, além dos rios
Amazonas e Tocantins. A teoria mais aceita sobre a origem do nome Marajó faz
menção às observações dos índios nativos da ilha, que a denominaram de
“Mibaraió”, e que em língua tupi significa “anteparo do mar” ou “tapamar”. Com
uma área de 40.100 km², Marajó é considerada a maior ilha fluviomarinha do
mundo (ou seja, ela é cercada por rios de um lado, e por mar do outro), e maior
que muitos países independentes, como por exemplo a Bélgica, que possui 30.528
km². Contando com uma população total de cerca de 250.000 habitantes, sua área
está dividida atualmente em 15 municípios, sendo que o principal destes é
Soure, com 22 mil habitantes, seguida de Salvaterra com 17 mil habitantes. A
ilha destaca-se pela sua paisagem diferenciada, mesmo dentro da região
amazônica, e é marcada por praias desertas de água salobra, igarapés e búfalos
por toda a parte. Originário da Ásia, o búfalo chegou por volta de 1890, e se
multiplicou rapidamente, a partir de importação de exemplares da raça carabau,
originária das Filipinas. Gradualmente estes se tornaram símbolos da ilha,
sendo vistos em grandes manadas nas extensas planícies ou dispersos nas
modestas áreas urbanas, onde são usados como táxi e montaria para a polícia. É
em Marajó que se encontra o maior rebanho do animal no Brasil, com cerca de 700
mil cabeças, cerca de três vezes a população de todos os seus municípios.
O
clima é marcado por chuvas constantes, e devido ao imenso volume, todo o seu
terreno permanece alagado. Grande variedade de peixes e pássaros se fazem
presentes no seu ecossistema, com destaque para o guará, uma ave típica de
penas vermelhas. Em determinada época do ano é possível observar em seu litoral
o fenômeno da “pororoca”, que é o encontro das águas fluviais e marítimas.
Marajó
foi habitada antes da chegada dos portugueses por nações indígenas com
sociedades bem avançadas e que produziram uma arte de considerável beleza
plástica e certo renome, a chamada arte marajoara. Acredita-se que a ilha de
Marajó foi explorada pelo navegador lusitano Duarte Pacheco Pereira em 1498,
antes mesmo do resto do Brasil. Por pensar estar pisando em território
espanhol, sua exploração teria permanecido em segredo. Os indígenas locais a
chamavam Marinatambal, mas já estava desocupada ao tempo da exploração
europeia. No período colonial passa a ser denominada ilha Grande de Joannes,
para receber seu atual nome à época da independência, no século XIX. (fonte
Infoescola)
3 Cacicados da Amazônia
O aumento
demográfico das populações amazônicas na época da Pré-História tardia,
combinado a outros fatores, suscitou grandes transformações entre as sociedades
indígenas da Amazônia (John Roach). Segundo arqueólogos, as sociedades que habitavam regiões da bacia
amazônica passaram a se organizar de forma cada vez mais elaborada entre o ano
1000 a.C. e o ano 1000 d.C. (Cunha, 2008). Os arqueólogos definem estas
sociedades como “cacicados complexos” (Roosevelt, 1997). Essas sociedades tornaram-se cada
vez mais hierarquizadas (provavelmente contendo nobres, "plebeus" e
servos cativos), constituíram chefias centralizadas na figura do cacique, e
adotaram posturas belicosas e expansionistas. O cacique, além de dominar amplos
territórios, organizava continuamente seus guerreiros visando conquistar novos
territórios. A cerâmica dessas sociedades era altamente elaborada, demonstrando
um domínio de técnicas complexas de produção. Havia urnas funerárias elaboradas
(associadas ao culto dos chefes mortos), comércio e os indícios arqueológicos
apontam uma densidade demográfica de escala urbana nessas civilizações.
Acredita-se que a monocultura era praticada, além da caça e da pesca
intensivas, a produção intensiva de raízes e o armazenamento de alimentos.
Segundo a pesquisadora Anna Roosevelt, "O desenvolvimento da agricultura
intensiva nos tempos pré-históricos parece ter estado correlacionado à rápida
expansão das populações das sociedades complexas. Sugestivamente, os
deslocamentos e o despovoamento do período histórico aparentemente fizeram com
que estas economias retornassem aos padrões de cultivo menos intensivo de
raízes e à captura de animais (...)."(Roosevelt, 1997).
Figura 2 – Vaso Tapajó denominado “Vaso de Cariátides”.
Fonte - www.historiaparafazer.blogspot.com.br/p/historia-da-amazonia_30.html
Fonte - www.historiaparafazer.blogspot.com.br/p/historia-da-amazonia_30.html
Crônicas
do início do período colonial são hoje empregadas na reconstrução das antigas
civilizações brasileiras. Muitos cronistas estrangeiros descreveram elementos
indígenas do período dos cacicados complexos. A dissolução dessas organizações
sociais normalmente é relacionada à conquista, que teria abalado sua estrutura
demográfica.
Figura 3 – Urna Funerária da fase marajoara.
Fonte - www.commons.wikimedia.org/wiki/File:Funerary_vessel_Collection_H_Law_172_n1.jpg
Fonte - www.commons.wikimedia.org/wiki/File:Funerary_vessel_Collection_H_Law_172_n1.jpg
A
cerâmica produzida por estas civilizações é classificada em dois grupos
principais: o Horizonte Policrômico
e o Horizonte Inciso Ponteado.
Entre os sítios arqueológicos que apresentaram vestígios agrupados sob o
Horizonte Policrômico estão: os Marajoaras (foz do Amazonas) e o Guarita (Médio
Amazonas), entre outros localizados fora da Amazônia brasileira. Entre os
sítios arqueológicos associados ao Horizonte Inciso Ponteado encontram-se: Santarém
(Baixo Amazonas) e Itacoatiara (Médio Amazonas). O primeiro horizonte é
caracterizado pelas pinturas brancas, pretas e vermelhas, pelos temas
geométricos e pelas incisões. O segundo horizonte é caracterizado pelas
incisões profundas e pela técnica de ponteação. Acredita-se que o Horizonte Inciso Ponteado estivesse
associado aos antepassados dos povos de língua Karib, enquanto o Horizonte Policrômico teria sido
produzido pelos antepassados dos povos de língua Tupi.
Os
grandes sítios amazônicos da época dos cacicados complexos parecem ter tido
regiões especializadas para o enterro, o culto, o trabalho e a guerra. A
ocupação pré-histórica tardia do território era sedentarizada. A entrada do milho
e de outras sementes na região, assim como sua popularização entre os
americanos, data do primeiro milênio antes de Cristo. (Roosevelt,
1997).
4 O cacicado dos Camutins
Trata-se de um sítio Arqueológico composto por
34 aterros localizados ao longo do rio Camutins. Durante as pesquisas,
relacionou-se os locais de moradia, cerimônias e festas com as transformações antrópicas
da paisagem, estudou-se também as estruturas internas dos aterros cerimoniais,
de forma a entender os indicadores de complexidades social considerados
críticos para o estudo de cacicados – especialização e controle sobre a
circulação de bens e prestígio, hierarquia, centralização política,
legitimidade (ideologia e religião) e
militarização.
No sítio foram identificados feições da
paisagem relacionadas a um sistema de manejo hidráulico ao longo do rio
Camutins, que estava funcionando plenamente em 700 A.D. (Uma barragem e dois
lagos conectados ao rio, com capacidade para reter recursos aquáticos). Os
conjuntos de artefatos sugerem que uma fonte principal de amido era usada, que pode
ter sido obtida de palmeiras ou mandioca. A elite, possivelmente, trocava peixe
por alimentos produzidos em outras regiões. As festas podem ter sido
oportunidades para a feitura de trocas, assim como um meio para promover a
integração e cooperação dentro do grupo social. Não havia grandes diferenças
dentro do grupo da elite, isso indica que um grupo corporativo estava no poder.
Somente alguns itens de trocas à longa distância foram encontrados e estavam
associados com os enterramentos mais antigos escavados.
Itens de troca à longa distância podem ter sido
importantes durante o período de maior desenvolvimento do sistema de criação de
peixes, mas tornaram-se raros no final da sequência. A cerâmica era produzida
para o consumo local dentro do domínio da elite e era uma atividade sazonal. É
possível que a produção de poucos itens mais elaborados fosse uma atividade
para poucos, mas que não levava à especialização de certos indivíduos no
sentido de alijá-los de outras atividades produtivas e criar uma classe
especial na sociedade.
Outros cacicados podem ter surgido em locais
onde as condições ecológicas favoreceram a reprodução de sistemas de
subsistência similares. Estes cacicados certamente interagiram entre si em um
sistema que envolvia trocas, alianças matrimoniais e guerras.
4.1 O manejo hidráulico no cacicado dos
Camutins
Betty
J. Meggers e Clifford Evans, já nos idos de 1957, acertadamente afirmaram que
uma sociedade complexa, que teria dado origem a conhecida cultura Marajoara,
tinha uma vez existido na Ilha de Marajó, que é parte de um arquipélago
localizado no delta do Rio Amazonas, contudo pecaram visceralmente ao negarem o
seu desenvolvimento na Amazônia, dizendo que essa cultura parece ter chegado à ilha de Marajó no ápice de seu
desenvolvimento e que [...] sua
história local revelada no registro arqueológico é de uma lenta deterioração. Disse
também que uma origem fora da Amazônia no
noroeste da América do Sul, [...] está de acordo com a evidência para a
ocorrência generalizada de um nível similar de desenvolvimento sociopolítico
nas áreas dos Andes e Caribe (Meggers, 1987).
Anna
Roosevelt, em seu livro Parmana (1980), faz
uma crítica ferrenha à teoria de Meggers e Evans, afirmando que a cultura
Marajoara teria sim se desenvolvido na Amazônia, mas não foi feliz ao afirmar
que a principal fonte de proteína dos indígenas estava baseada na cultivação do
milho, pois segundo ela boa parte da
superfície de Marajó é composta de sedimentos profundos e ricos [...] os solos
são bem supridos com elementos nutrientes para plantas [...] o potencial
agrícola dos solos das planícies inundáveis de Marajó é, portanto,
significativo (Roosevelt, 1989), o que é uma incoerência, pois é sabido que
os solos da ilha são pobres e frágeis, assim, de certa forma, impossibilitando
o desenvolvimento de uma complexidade sociopolítica baseada somente na
agricultura.
Já
Denise Pahl Schaan, contribuiu ricamente para a elucidação desta questão quando
estudou o sítio arqueológico onde uma vez existiu o Cacicado dos Camutins que
se desenvolveu baseado principalmente nos recursos aquáticos. Ela afirma que a razão maior para o não-desenvolvimento
de uma agricultura intensiva não seria a pobreza dos solos, mas a abundância
dos recursos aquáticos, que proporcionavam uma fonte de alimentos mais
confiável, que poderia ser explorada com baixo investimento de trabalho
(Schaan, 2006). E é ainda mais contundente ao afirmar que a intensificação da captura de recursos
aquáticos pode ter estado na base do desenvolvimento de cacicados em toda a bacia
Amazônica no período que antecedeu a conquista, em vez de uma agricultura
intensiva (Schaan, 2006). O que a nosso ver parece ser a assertiva mais
correta.
5 Conciderações Finais
De acordo
com os dados obtidos no decorrer das pesquisas, ficou claro que os indígenas da Ilha de Marajó sabiam
manejar as águas dos rios a seu favor, construindo lagos artificiais,
conectados ao rio, que tinham capacidade de reter recursos aquáticos que são
abundantes na região. Isto posto, acreditamos que o surgimento da complexidade
social na Ilha de Marajó teria sido impulsionada muito mais pelo
desenvolvimento de uma pesca intensiva que pela agricultura, assim, podendo até
mesmo sugerir o seguinte modelo para entender outros
cacicados da ilha: uma sociedade hierárquica e estratificada, dividida em
nobres e comuns, com economia baseada na pesca intensiva, poder nas mãos de uma
linhagem que se colocava como descendente de deuses, utilização da ideologia e
controle sobre a religião para justificar a estratificação social, mobilização
de trabalho para a construção das obras de controle hidráulico, especialização
do trabalho não muito desenvolvida, mas tendo por base gênero, idade e posição
social; guerra, competição, trocas e alianças de casamento teriam caracterizado
as relações entre os cacicados.
6 Bibliografia Consultada
BALÉE, William. Culturas de
Distúrbio e Diversidade em Substratos Amazônicos. Revista de Arqueologia,
21, 2008.
______________. Sobre a
Indigeneidade das Paisagens. Revista de Arqueologia, 21, 2008.
CARNEIRO, Robert L. A Base
Ecológica Dos Cacicados Amazônicos. Revista de
Arqueologia, 20, 2007.
CUNHA, Manuela
Carneiro. História dos Índios no Brasil,
2008.
MEGGERS, Betty J. Environmental Limitation of the development
of culture. American Anthropologist, 1954.
________________. The early history of man in Amazonia. Claredon
Press, 1987.
NEVES, Walter Alves. Antropologia
Ecológica: um olhar materialista sobre as sociedades humanas. Cortez
Editora, 2002.
ROOSEVELT, Anna C. Parmana: Prehistoric maize and manioc
subsistence along the Amazon and Orinoco. New York, Academic Press, 1980.
___________________.
Lost civilizations of the lower Amazon. Natural
History, 1989.
SCHAAN, Denise Pahl. Marajó: Arqueologia, Iconografia, História e Patrimônio. Pueblos y Paisajes Antiguos de La Selva Amazónica, 2006.



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